Manny é ranzinza até achar o seu grande amor, EllieScrat já é um personagem do imaginário infantil tão ou mais marcante que qualquer um da Pixar ou da Dreamworks. É o esquilo nonsense que corre atrás de sua avelã como se aquilo representasse o fim dos tempos. Após a era de dominação da Disney, começaram a surgir novas figuras para renovar o imaginário infantil e poucos tiveram o mesmo êxito semiótico que Scrat. Talvez Shrek ou Nemo, todos pouco atrás de Buzz e Woody. O fato é que todos se lembram do viral que tomava conta das sessões de cinema meses antes da estreia de “A Era do Gelo”: a incessante busca do esquilo em uma montanha de gelo. Já faz dez anos desde a estreia do filme, e muita coisa mudou desde então. Nada, porém, se compara ao tanto de vidas que esse pequeno animal possui.
O filme foi um projeto da 20th Century Fox idealizado pelo brasileiro Carlos Saldanha, Chris Wedge e Michael Berg, e começou a profissionalização da animação em outros estúdios de Hollywood. Baseado em uma história de Michael J. Wilson, “A Era do Gelo” estreou mostrando as aventuras de Diego, Sid e Manny pela Terra. Há 10 mil anos o planeta era gelado e algumas mudanças climáticas começaram a aproximar os animais. Sid é um preguiça falante e inocente; Diego um furioso dente-de-sabre; e Manny um mamute ranzinza. Tudo muda quando eles se veem apurados para salvar a vida de um bebê humano e ao invés de rumar para o sul em busca de proteção vão para o lado errado. O filme ganhou o Oscar de melhor animação.
Em “A Era do Gelo 2”, Sid, Manny e Diego se veem obrigados a fugir de um paraíso com cachoeiras e muita água para se salvarem. O desgelo está em pleno vapor e novas criaturas, que estavam congeladas, aparecem para assustar a trama. Manny conhece Ellie, um mamute que jura ser um gambá, e se apaixona. Scrat vira um samurai e novos personagens secundários aparecem na trama.
E em “A Era do Gelo 3: A Era dos Dinossauros”, Diego, Sid e Manny se aventuram contra os maiores predadores da Terra. Manny e Ellie aguardam o bebê mamute e Sid forma uma família um tanto inusitada. Com esse cenário, Diego se pergunta se não está na hora de seguir o seu caminho e acaba deixando o clã. Mas uma missão para resgatar o azarado Sid o coloca de volta na trama, que reafirma a amizade entre os animais em uma luta contra plantas carnívoras e uma caçadora de dinossauros. A mensagem salva o filme e a série começa a cair. As piadas vêm e voltam, os personagens vivem suas vidas sem preocupação e os figurantes tomam conta do filme. Também é o primeiro sem a presença marcante de Carlos Saldanha no projeto, já ocupado com “Rio”.
O extrato termina com “A Era do Gelo 4”, talvez o mais fraco da série. É também o mais exagerado e as piadas nem sempre funcionam. O recado, porém, está dado. Todo o projeto tem cenários deslumbrantes e muita textura, os personagens (um obeso, um sem noção e um predador) são parte da cultura infantil e dos preconceitos que a sociedade impõe. Esse é, talvez, o grande mérito de “A Era do Gelo”. Focada nos animais, a série fala sobre solidão, amizade, família, inocência, crescimento e diversão sem responsabilidade, com protagonistas que brincam em tela para passar também uma mensagem ambiental muito forte às novas gerações.
A destruição da sociedade começa com a própria destruição de conceitos e a falta de conscientização. É disso que os produtores falam, e com o mérito da diversão. Alcançar o público infantil com a qualidade e destreza que a série fez são poucas que conseguem. Vários tropeços nesse caminho não atrapalham. E Scrat, como figura recorrente e especial, é um dos auges da animação em computação gráfica. E garantia de risada, essa que é a relação mais estreita entre os humanos. Por que não nos animais?
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